domingo, 2 de outubro de 2011

DORMÊNCIA

Perguntaram meu nome na estação. Fiquei pesando sobre o que responder. Fui um pedaço da dor com minhas perdas. Coloquei a mão por dentro do peito e senti a massa mole e dormente do meu coração. Frio! Gelado como todos os meus fôlegos nos últimos dias. Pensei em responder que eu me chamava “Vento”. Um nada perdido na imensidão das chamas. Ele me olhou e esperou pelo meu nome. Olhou meus olhos e sentiu um pouco do meu vazio. Quem eu era, fui deixando aos poucos de ser. Fração sangrada e junção de várias dores. Ele me olhava e olhava… Meu nome estava apagado dentro de mim. Fui sendo aos poucos borrado pelos que diziam me amar. E quase esquecido por mim mesmo. Qual era o meu nome? Eu buscava saber. Ofegando com a certeza e o pavor do esquecimento. Doeu mais do que um zilhão de punhaladas saber que eu havia deixado de ser eu mesmo. Perdi meu baú de segredos vividos, passando a ser mais uma sombra turva e quase humana riscada no chão.
Qual o seu nome? – ele perguntou novamente.
Pensei e respondi: Esquecimento...

ACHO QUE ESTOU CANSADO…

Eu só estou aprendendo. Entendendo o que é ficar junto; sofrendo ao conhecer o que é ficar só. Existem momentos em que eu queria prender-te em meus braços e não me separar de você. Outros, porém, sufoco-me com tua presença e me desespero ao tentar e não conseguir respirar.
Eu quero ser amado! Preciso sentir isso novamente. Necessito viver a observar gestos que comprovem realmente que isso existe. Ouvir as palavras “eu te amo” camufladas em momentos e expressões que com sua força engulam as próprias palavras que passam a ser somente palavras e nada mais.
… Mas também quero amar! Quero olhar para a pessoa que está ao meu lado e simplesmente sentir-me feliz por está ali. Não quero chorar por dentro todas as vezes que a voz desse alguém tocar meus ouvidos com algo doloroso. Preferiria cegar meus próprios olhos a ter que ver nascendo aos poucos e cruelmente o meu sofrimento.
O desespero não combina com minha alma. E, por isso, ela grita querendo ajuda. Quero somente fechar meus olhos e ter um motivo incrivelmente bom que me impulsione a abri-los no dia seguinte. É ruim pensar em desistir! É ruim desejar não acordar!
Queria chorar e ter alguém que ficasse ao meu lado. Não para estupidamente tentar secar minhas lágrimas com palavras tolas, mas, sim, para vê-las caírem junto comigo para que somente eu não me sinta tão só com as minhas tristezas…
A minha dor de não amar é tão injusta quanto o sentimento de simplesmente viver. Busco gritar implorando que o diferente não seja tão igual. Que você me veja como alguém e não como algo. Que escute minhas dores e entenda que elas realmente doem. Que fale somente o que precisa ser dito e não o que todo mundo falaria se estivesse na mesma situação. Que toque em minha pele porque sabe onde irá me fazer vibrar e não por fingir conhecer o que, na verdade, há tempos desconhece…
Só quero sorrir e vibrar e pular e gritar e mais ainda sorrir! Sei que alegrias do passado não surgirão novamente por meus olhos – eu seria estúpido se sonhasse com isso! – porém, mesmo cansado de tentar e ter esperanças, imagino, com o meu desejo do tamanho de uma pequena fagulha de chama no meio da escuridão da noite, que o amanhã será novo e a claridade do dia tão forte quanto meus antigos segundos de felicidade que eu sentia antes ao seu lado…

Os SERE INCOMPLETOS QUE SOMOS

Todos sempre buscamos o melhor e mais fácil caminho em direção a perfeição. Caminho esse que julgamos ser o destino certo onde encontraremos a verdadeira felicidade. Muitos (para não dizer simplesmente todos…) passam toda a sua vida em busca da completude, perseguem a ideia de que em algum momento, esperançosamente e um futuro próximo, encontrarão a sensação de estarem “inteiros”. Então, desbravando-se pelos infindáveis obstáculos da vida, o ser humano trava um batalho contra os próprios empecilhos do seu dia-a-dia para conseguir esse intento. O homem passa a acumular riquezas que julga necessárias e conceitos que engrandecem o seu errôneo senso do que seria certo e virtude de suas ambições. Ele passa a acreditar que se sentirá pleno e inteiro ao conseguir acumular e engrandecer o seu “império” materialistamente supérfluo.
Muitos apanham e sofrem os maiores males e decepções nessas lutas travadas até possuírem o que tanto querem. Outros infindáveis desistem pelo caminho e abandonar a idéia de felicidade e caem na típica desilusão.
- O que eu fiz de errado? – é o pensamento que circula e dá cambalhotas no íntimo dos que se perderam.
Então ele passa a pensar nas escolhas que ele fez e nas conseqüências de cada uma delas. Ele passa a sofrer novamente e outra vez mais ao não encontrar respostas válidas que satisfaçam seu ego rebaixado.
O homem derrotado pensa que o seu caminho rumo a felicidade foi desviado em algum momento por obstáculos externos que o guiaram em direção inversa ao da sua idéia de plenitude. E, tipicamente, (e já um estúpido clichê) ele simplesmente escolhe culpar os outros, pois isso lhe é mais cômodo.
Ora, creio que o que aconteceu com esse e verdadeiramente toda a espécie humano, é que simplesmente ela cravou dentro de seus conceitos que a verdadeira felicidade sempre surgi de fora pra dentro. Acredita ela que, se conseguir o que deseja toca com as palmas de suas mãos, isso lhe trará felicidade. No entanto, esse conceito humano, como muitos outros, mais uma vez está errado. O homem nunca aprendeu (ou procurou dá verdadeira atenção) a realidade de que o mundo se mostra ao nosso redor plenamente idêntico aos traços que estão riscados dentro do seu próprio coração.   Ele não entendeu que, primeiramente, é necessário crescer internamente, conhecer a si mesmo e identificar e reconhecer suas falhas, aprendendo com elas a ser alguém melhor. Que é preciso compreender o que nos deixa verdadeiramente integrado com o mundo e lhe dar com as formas que nos desintegram ao nos relacionarmos com os outros. Aprender a conviver com quem está ao nosso lado , aceitando suas aversões e rompantes de distanciamento e ira.
Se esse é o caminho da felicidade? Realmente eu não sei! Porém, creio que esse percurso (apesar de mais difícil) será o qual com certeza nos fará crescer.

O BOBÃO QUE NÃO GOSTA DE LER

A … B… C… Três passos engatinhados em um mundo novo e estranho. Foram momentos de deslizes e incertezas. “O certo é ‘te amo’ ou ‘eu te amo’, fessô? O mestre respira fundo e diz com a voz azeda algo já repetido três vezes: “Não se começa frase com pronome obliquo!”. “Pronome o quê?”Dai você rala e rala tal morena d’O TCHAN até aprender. Sua. Sofre com as noites tentando decorar o que se concerta com “C” e o que é o tal conserto com “S”. Você sofre. Chora, até! Mas aprende. Sofre, mas aprende. Dai, depois de tanto lutar para aprender… você para! Parar? Depois de horas estudando o som das palavras, você para? Os livros se empilham em uma torre mais torta e vacilante que a de Pisa. E dalhe livro escorado! “É bonito, né?” Você zoa com os amigos ao ver que o livro de um tal Júlio Verne já está tão alto na pilha que, como o título, está quase chegando à lua. E você zoa! Ri que é uma beleza! Despreza as palavras sofridas que o tal Verne entortou o pulso para escrever. “É tudo invenção!” Você argumentar com aquele professor chato de “portuga” que tenta (e sofre mais que o Verne!) fazer você ler. Mas, bobão como só você, não vê que a beleza das coisas está ai: a genialidade que alguém teve ao escrever (invenção ou não) sobre o monstro mais fabuloso e melequento do mundo, sobre aventuras de um menino que adora voar sobre um tapete desfiado, porém mágico, ou, ainda, sobre um rapazinho, nem anão e nem homem, que mora em uma toca na curva de uma montanha. Mas você ri! Esquece e abre mão do mundo que está naquele pilha. Mal sabe a “fabulosidade” (tá vendo, só? palavra inventada e bonita de dá dó!) das pessoas que você pode conhecer, das vidas que pode sentir pulsar entre os dedos e ser um leitor que olha a vida dos outros bem do alto como um Deus. Um Deus que, de tanto ler, aprendeu o significado de um mundão de palavras. Tai, O Deus das Palavras! Que se prende as palavras das páginas e aprende com elas a ser um Deus melhor. Um que deixa de ser bobinho ao pensar que livro só serve como tijolo em um castelo formado por cartas grossas. Um Deus que se torna ouvinte. E escuta paciente os motivos da tal Aurélia do Alencar, ou, até mesmo, se cala para entender o que o Senhor Bentinho vê de tão interessante por baixo e dentro dos olhos de cigana de sua Capitu. Dai, curioso, você organiza a pilha e descobre as maravilhas de uma Casa à Vapor; o que acontece quando se vive Cem Anos de plena Solidão; e que se pode aprender muita coisa com uma Menina Que, justificadamente,  Roubava Livros. E você vai querer saber mais e mais e mais e mais! Vai ouvir entres as páginas suspiros melosos de Je t’ame e algumas doses forte do que seria La Petit Mort (não vou dizer o que é isso. Você vai ter que ler para saber, espertinho!). e vai sorrir e sonhar e saber falar alguma coisa quando a conversa em um grupo de amigos deixar de ser somente televisão. “Ei, vocês já ouviram a história duns carinhas assim, da nossa idade, que desvendaram um crime?”, você vai perguntar todo boçal. “Não!?”, a turma vai dizer curiosa. “É em um livro que eu li, A Droga da Obediência”. A galera vai ouvir o resto da história. E você? Vai ser o carinha inteligente que lê e que sabe das “coisas”…  Ruim essa vida? Nem tanto… Pior seria ficar em casa, rindo feito um mané, olhando um monte de livros mudos e empilhados que não tiveram a menor culpa de cair nas mãos de um bobão como você, que está terminando de ler isso e ainda pensando que ler é a maior chatice.